O Super-Homem, a laranjeira e o superexcedente

10/10/2016

 

Estou de volta à Fazenda Bethesda. Havia planejado caminhar e meditar pelas trilhas e pelos pequenos pastos, não foi possível. Bem, acabei sendo figurante nas filmagens do Ministério Efathá. Mas não poderia perder a oportunidade de visitar, mesmo que de longe, a laranjeira do vizinho. Também fui ver a árvore que plantei, mas isso é outra história. Lá estavam elas, as laranjeiras, agora mostrando seus frutos, todas elas, inclusive aquela que em tempos passados era a única a exibir fruto, e um só fruto.

Àquela época não era tempo de se colher laranjas e nossa laranjeira (já soa intimidade) se destacava em sua frutificação, era como ela insistisse em nos abençoar com o seu fruto. Agora, tempo de se colher laranjas, ela se apresenta com vários frutos; junto à outras laranjeiras. Parece que tudo voltou ao normal, tempo de laranjas vou à uma laranjeira e encontro os frutos; afinal é para isso que as laranjeiras existem, elas “devem” fazer isso. Passo a meditar nos intervalos das filmagens, vida de artista é mesmo corrida. Algumas ideias sobre o que “devemos fazer” me veem à mente e ao coração. Começo com o Super-Homem, uma projeção de anseios e necessidades humanas. Ele é alguém de quem esperamos que “deva fazer” muitas coisas. A filosofia, uma das ciências do comportamento humano, pode nos ajudar; acompanhe: “Nós esperamos muito do Super-Homem porque ele pode fazer muito. Mas será possível para ele fazer mais do que esperamos ou que ele “deveria fazer”? Pareceria que quanto maiores as capacidades e responsabilidades superiores que as pessoas têm, menos impressionados ficamos quando eles as cumprem. Por um lado, isso faz sentido. Se esperássemos que a jovem Lois limpasse seu quarto, seu pai não a elogiaria quando ela assim fizesse. Mas se ela se voluntariasse para cortar a grama e fizesse um grande trabalho, ele a elogiaria e possivelmente a recompensaria. Ela teria ido “acima e além de seu dever”. Os filósofos chamam tais ações de superexcedentes. Entretanto, ironicamente, pode não ser possível para o Super-Homem ser superexcedente, dado que muito pouco está acima ou além do chamado do dever para ele, dadas as nossas expectativas incrivelmente altas” (Superman e a filosofia, p. 188). O mito, ou arquétipo, do super-herói perpassa por muitas culturas. Almejamos por alguém que resolva nossos problemas e nos livre dos perigos de nosso mundo, e também de ataques alienígenas. O Super-Homem é indestrutível, a não ser que ele se meta com o Batman ou que seja exposto à kriptonita, elemento raro em nosso planeta. Olhamos para o céu e não queremos ver um avião, queremos ver o Super-Homem chegando para nos salvar de algum grande perigo. Ele é rápido e por isso não pode chegar atrasado. Ele é forte e espero que vença o desafio. Ele tem visão de raio-X e pode ver tudo, não tem desculpas se não me salvar de um assalto numa área escura ou fechada. Ele tem superaudição e precisa ouvir meu grito de socorro mesmo estando salvando alguém do outro lado do mundo. Nada de espantoso ele realizar tais tarefas, afinal de contas ele é o Super-Homem; se não o fizer ele não é Super. Também não merece muitos elogios, ele não realiza nenhuma ação superexcedente que o mereça. Fico imaginando algumas situações de nosso dia a dia, as expectativas que fazemos de nós mesmos e que fazemos a respeito dos outros. Posso me achar o Super-Capaz e me cobrar em ações extraordinárias considerando-as apenas como o mínimo que devo fazer. Posso inclusive viver em eterno débito para com as pessoas, como Katniss em Jogos Vorazes. Posso entrar em depressão quando percebo que não consigo alcançar as altas expectativas que tracei para mim. Outra situação é ser visto como um tipo de “Super-Homem” e ser cobrado como tal. É uma armadilha e se eu cair nela vou me ferir e ferir pessoas. No contexto de igrejas costumo ver com preocupação essa situação. A igreja vê alguns irmãos ou irmãs como “super crentes”, “super consagrados”, “super disponíveis”, “super capazes” e então os enchem de cargos, funções, tarefas e reuniões. A experiência de dar aulas no Seminário possibilita que eu veja isso em muitas igrejas de várias denominações. A igreja acredita que tudo que esses fazem é nada mais nada menos que o natural, nada superexcedente. E esperam cada vez mais! Exemplifico com outra de minhas teorias não científicas: acredito que pessoas casadas que trabalham todo o dia e que comprometem todas as suas noites com tarefas eclesiásticas, seja nas dependências físicas da igreja ou não, tem problemas no casamento; ou terão em pouco tempo. E as vezes nós cobramos isso do outro: você “deve” usar os seus talentos no Reino, não foi sem propósito que Deus lhe concedeu a inteligência que você tem, você não pode desconsiderar as portas que Deus abriu para a sua formação intelectual e profissional, e falas do gênero. É óbvio que há verdade nas declarações, mas daí usa-las para aprisionar uma pessoa a um sem número de tarefas é outra história. Não deixamos espaço na vida dessa pessoa para as ações superexcedentes. Dois versículos bíblicos transitam em minha mente e coração. O primeiro é Eclesiastes 9.1: “Deveras me apliquei a todas estas coisas para claramente entender tudo isto: que os justos, os sábios, e os seus feitos estão nas mãos de Deus: e se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem. Tudo lhe está oculto no futuro” (Almeida Revista e Atualizada). Antes de me preocupar como o outro vê minhas obras preciso atentar para como Deus as vê, minhas ações estão nas mãos de Deus. O segundo texto é Eclesiastes 9.10 que diz: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (ARA). Tudo: o “fazer” família, o “fazer” irmãos em Cristo, o “fazer” amigos, o “fazer” vizinhos, o “fazer” colegas de trabalho .... Fazer o que devo em todos esses fazeres e de vez em quando uma ação superexcedente. Tenho a curiosidade de provar o fruto de “minha” laranjeira, mas isso é outra história!

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